Turquia 2011

Nesta viagem, onde havia pessoas de São Paulo, Minas Gerais e Pará, ocorreu uma perfeita sintonia entre todos do grupo, fazendo com que ela se tornasse inesquecível para todos nós.

Viajar pela Turquia é o mesmo que fazer um curso sobre a história da humanidade, onde a natureza e a cultura são os nossos grandes mestres. Em Istambul, acompanhamos a cultura de outros povos que invadiram a região diversas vezes, deixando as marcas de sua passagem nas pinturas, mosaicos, na arquitetura, nos templos, e principalmente, nos temperos e condimentos exóticos que podemos comprar no Mercado de Especiarias.

A religião muçulmana se faz presente dia e noite na entoação pública de suas orações pelos auto-falantes dos minaretes que se espalham pela cidade. Mulheres caminham quase totalmente cobertas por vestes negras, algumas cobrem só a cabeça com turbantes coloridos, outras andam de óculos raiban e calça jeans, mostrando que a cultura está mudando também no mundo turco.

A ponte sobre o estreito de Bósforo divide a cidade em duas partes, a européia e a asiática. Lá do alto, a torre de Gálata vigia a cidade em movimento. No Grande Bazar se atropela a multidão fascinada com as lojas de especiarias, pachiminas, pratas, cerâmicas coloridas, onde os turistas se encantam com a variedade de cores e perfumes.

De Istambul para a Anatólia damos um passo para milhões de anos atrás, onde a natureza escavou nas rochas as formas mais bizarras do mundo. Em Urgup vimos uma paisagem formada há 600 milhões de anos pela ação dos vulcões, e em toda a Capadócia assistimos a luta dos homens pela sobrevivência, escavando nas rochas cidades de até 5 andares, como em Uchisar, onde escondiam e se protegiam contra os invasores. Kaimaklû é uma cidade subterrânea impressionante.

Em Avanos vivmos a cerâmica tradicional da antiga Anatólia sendo fabricada segundo os padrões antigos de 8.000 anos. A beleza dos pratos pintados a mão é uma verdadeira obras de arte. Também a fabricação de tapetes é uma arte que começa a entrar em extinção, por falta de mão de obra. Mulheres idosas são pagas pelo governo para tecerem os maravilhosos tapetes que vemos nas lojas.

Pamukhale é uma paisagem lunar de beleza estonteante. Do fundo da terra brotam as águas termais que enchem as piscinas naturais de um branco calcáreo, formando várias camadas ao longo da montanha. O contato com essa água é profundamente vitalizante e tem sido usada para cura de doenças reumáticas.

Ao nos aproximar do litoral do mar Egeu, a paisagem começa a mudar e nos vemos rodeados por oliveiras e figueiras enormes ao longo da estrada. Chegamos em Kusadâsi, e daí a visita a Éfeso foi o coroamento de toda a viagem. Éfeso foi uma cidade que, segundo a tradição, teria sido construída por mulheres, chamadas amazonas, e realmente pode-se ver a influência do feminino em toda sua história cultural, política e arquitetura. Artêmis era a divindade que presidia todos os cultos, seu templo teria sido um dos maiores em toda a antiguidade. Hoje está completamente destruído, restando apenas algumas pedras.

A cidade antiga de Éfeso guarda ainda a memória da riqueza de seus prédios imensos, de suas ruas ladeadas de colunas de mármore, edifícios repletos de estátuas de personagens importantes da época, nos banhos turcos, em algumas casas ainda preservadas e nos templos dedicados aos cultos religiosos.É realmente uma viagem na história, andar por aquelas ruínas que falam e despertam nossa memória ancestral.

A casa da Virgem Maria fica em Éfeso, no alto de uma montanha onde, segundo a tradição, São João a teria levado para morar para fugir da perseguição dos romanos aos cristãos, logo depois da crucificação de Jesus. É uma casinha pequena, feita totalmente de pedras. A emoção nos toca profundamente ao entrar. Há pouco tempo houve um incêndio enorme na região, mas o fogo se deteve há alguns metros da casa de Maria. Ainda se pode ver a vegetação toda queimada ao redor, e em volta da casa tudo intacto...

Ainda há muito a se pesquisar sobre as origens matriarcais da cultura em toda a Anatólia, antes dos nômades hunos, hititas, mongóis e outros povos chegarem com sua cultura masculina, guerreira e colonizadora, e dominarem toda a região.

A primeira povoação que se tem notícia foi a de Çatalhoyuk, há cerca de 7 mil anos a.C. época conhecida como Neolítico, ou Idade da Pedra. Escavações encontraram os restos do que teria sido uma cultura pacífica, sedentária, voltada à agricultura. Sua religião era fortemente matriarcal, e dentre os achados pré-históricos havia milhares de pequenas estatuetas da Deusa Mãe, cultuada pelo povo.

Este fato pode ser confirmado pelos estudos sobre a origem do nome Capadócia. Existem placas de bronze muito antigas que fazem menção ao nome desta região como “Katpatuka”, cujo significado na língua persa é “país onde se criam bons cavalos”. A região da Anatólia foi invadida primeiramente pelos povos Hititas, que chegaram à cavalo e dominaram a população nativa. Muitos outros povos invadiram a região, mantendo sempre a criação de cavalos como uma tradição em toda a região da Capadócia. Mas, antes dessas invasões de povos nômades e guerreiros, o nome desta imensa planície era “Katpat-uka”, que significa “país dos habitantes de Katpat”. Ocorre que, entre os anos 2000 aC., a Deusa Mãe ainda era cultuada pelos nativos, e tinha o nome de “Khepat”, que mais tarde, passando para a fonética grega daria “Katpatuka”, que significa “país da sagrada Deusa Mãe”. Muito tempo depois esse nome evoluiu para Kappadokia, que é Capadócia, em turco. A memória da Deusa Mãe se perdeu quase totalmente em terras turcas na língua dos colonizadores.

Durante a viagem, por entre as ruínas antigas de Éfeso, nas noites misteriosas da Capadócia, diante das águas azuis de Pamukhale, nós realizamos rituais de meditação e dança circular sagrada. Isso fez com que esta fosse, não uma viagem de turismo como tantas outras, mas uma verdadeira viagem mística a um lugar sagrado.