A missão Transpessoal de Pierre Weil

Atualizado: Set 4

Lembro-me do espanto que senti quando, há mais de 20 anos, tive o meu primeiro contato com a psicologia Transpessoal. Durante uma vivência, surgiu Pierre Weil envolto numa túnica indiana comprida, realizando um rito xamânico de cura. Diante do crepitar das chamas de uma fogueira, sua figura alva e seus cabelos brancos pareciam ser uma aparição do mago Merlin. Sua vinda para o Brasil o ajudou a superar o sentimento de antropocentrismo cultural tão forte entre os acadêmicos europeus. Era o mês de julho de 1948 quando ele chegou ao Rio de Janeiro. Misto de várias raças, religiões e culturas, neste país ele pode vivenciar a unidade que se esconde sob a pluralidade de todas as tradições religiosas da terra. Ele contava que um dia, no mercado da zona amazônica, encontrou uma estrela de Davi em madeira, com uma cruz entalhada dentro dela! Nos ritos afro-brasileiros, encontrava explicações semelhantes àquelas da Cabala hebraica... e nas sessões de candomblé, verdadeiras curas psicossomáticas. Na verdade, tudo isso produzia ressonâncias que enriqueciam seu espírito, já familiarizado com a relatividade religiosa e cultural de sua família, onde se praticavam três religiões, o catolicismo, o judaísmo e o protestantismo. Desde cedo ele aprendeu a conviver com cerimônias judaicas na sinagoga, comungar a hóstia sagrada nas missas e participar de cultos protestantes junto com seus familiares. Tanto que ele brincava com a idéia de uma espécie de “associação católica de judeus protestantes a favor do maometismo budista”... Ao preparar sua tese de doutoramento na Universidade de Paris, Pierre Weil começou a dar os primeiros passos rumo a sua missão transpessoal nesta vida. A esfinge era seu objeto de estudo. Posteriormente sua tese foi publicada numa edição do Epi com o nome “Le Sphynx: symbole et structure de l´homme”. Certamente este passo foi difícil para ele, que havia sido formado pelo cartesianismo francês, tendo por mestres Wallon, Piaget, Léon Walter. De repente ele passou a ler sobre os Chakras, a se interessar pela Cabala, Vedas, Tarô, Numerologia... e se embrenhou em estudos esotéricos, tendo como guias os textos de Papus, Helena Blavatski, Eliphas Levi, Gurgieff e Ouspenski, entre outros. Nunca vamos conseguir avaliar sua luta interna para conciliar todos esses conhecimentos esotéricos com a metodologia científica. Mas seu esforço foi recompensado e ele pôde decifrar o mistério da esfinge como um complexo código simbólico deixado por nossos ancestrais para assinalar a estrutura psicossomática do ser humano. No Brasil, Pierre Weil conheceu o sucesso com seus livros e sua carreira como professor universitário. Mas, sua vida pessoal estava em frangalhos e a perda de sentido o fez produzir um câncer. Começa a buscar respostas na prática do Yoga e da psicanálise, tentando reunir as funções do cérebro direito e esquerdo, entre oriente e ocidente. Aconselhado por grandes mestres como Swami Chidananda e Muktamanda, ele parte para um retiro de 3 anos no Tibete, onde trabalha a sua paz interior. Ao retornar, cada vez mais convencido de que é preciso criar um método para despertar as pessoas para a paz interior, ele introduz novas visões no curso oficial de psicologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) EM 1972. Nesta época ela dava aula de Teorias e Técnicas Psicoterápicas. Foi quando começou a falar de uma nova disciplina chamada Psicodrama Triádico, criada por ele. Essa disciplina constava de um misto de psicanálise, psicodrama e dinâmica de grupo. Ainda não se falava em psicologia Transpessoal e os cursos de psicologia se baseavam predominantemente no comportamentalismo. Transitando entre os professores com sua bata branca indiana, ele fazia os alunos se deitarem no chão empoeirado da sala de aula, e ensinava técnicas de respiração, relaxamento e meditação. Nem é preciso dizer que eles adoravam as aulas do professor Weil... Mas seu sonho de uma educação para a paz ainda não se realizara. Em 1987, com o apoio de Monique Thoening, criadora da primeira Universidade Holística de Paris, e de Jean Yves Leloup, ele fundou em Brasília a Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ. O modelo transdisciplinar desenvolvido por ele, chamado de “A Arte de Viver em Paz”, foi aprovado e reconhecido pelos órgãos das Nações Unidas para a educação. Hoje existem cursos de formação da Unipaz em quase todos os estados brasileiros. As bases de seu programa são: A paz consigo próprio, envolvendo o corpo, as emoções e o espírito. A Paz com os outros, no plano da economia, da sociedade, da política e da cultura. A Paz com a natureza, envolvendo a ecologia, a vida e a consciência planetária. Pierre Weil foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz em 2003. A grande aceitação de seu seminário o levou a formar uma Associação Européia de Educação para a Paz, com o objetivo de multiplicar o processo iniciado no Brasil. Muitas são as lembranças de sua passagem entre nós. Certo dia, rememorando momentos que foram compartilhados com ele, meu marido se lembrou que, no final de seu curso de psicologia, em Belo Horizonte, ele foi incumbido de pedir ao professor Weil para ser o paraninfo da turma mas, com uma ressalva: que ele não fizesse um discurso muito longo, que fosse breve... O pedido foi feito e ele aceitou. No dia da cerimônia, o discurso de Pierre Weil despertou lágrimas de comoção. Não durou mais do que alguns poucos minutos e ele falou sobre... o silêncio. O silêncio do analista, o silêncio dos oprimidos, o silêncio dos amantes, o silêncio dos que morrem ... e finalizou dizendo que, diante do pedido dos alunos, ele também ia ficar em silêncio. Foi aplaudido de pé... Pierre Weil partiu desse mundo no dia 10 de outubro, em Brasília, com 84 anos de idade. O seu silêncio, hoje, reverbera em nossos corações, entoando os mantras da paz: Shalon Alechen; Salam Alecum; Om Shanti; Pinam Pani; May Peace Be in you; La Paix em Toi; La Paz em Usted; A paz em Você.... *Artigo publicado no Bulletin du Transpersonnel Nº 93 janeiro / 2009 Association Française du Transpersonnel


Autor Mani Alvarez

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