Quando os sonhos saem do armário...

É nos momentos de crise que podem surgir novas oportunidades. Vivemos atualmente a crise do desemprego. Milhões de pessoas sem trabalho e sem dinheiro. Quando faltam esses dois elementos, talvez seja uma boa oportunidade para se pensar no significado do trabalho em sua vida. Será que o trabalho que você realizava tinha sentido? Desde a expulsão de Adão do paraíso que o trabalho passou a significar ‘castigo’, sofrimento, culpa, punição. Será que ele tem de ser sempre assim? Será que não está na hora de buscar um novo sentido para o trabalho? Uma rápida incursão antropológica pela história nos revela que o trabalho começou como uma atividade basicamente de subsistência. As pessoas trabalhavam para comer, construir abrigos e se proteger dos perigos. Depois o trabalho virou um meio de conquistas, de manter as guerras, a ação da dominação de uns pelos outros. O trabalho tomou a forma de construção de armas, meios de transporte, instrumentos de defesa. Para os mercenários, matar também era ‘trabalho’. Essa organização social perdurou por milênios. A Idade Média encontrou pessoas muito conformadas com o sistema de castas sociais. O trabalho era uma forma de escravidão aos senhores feudais. Isso foi até a revolução industrial, quando então a possibilidade de ganhar dinheiro se tornou o mais poderoso motor para o trabalho. Tendo dinheiro as pessoas podiam conquistar poder social, prestígio, conforto. O dinheiro, rapidamente, se transformou no principal motivo para o trabalho. No mercado do capital, cada um passou a valer o quanto ganha. Mas, esse império tem altos e baixos, e agora está em baixa. Sem trabalho e sem dinheiro, as pessoas começam a se questionar se querem ou não continuar a ser os soldadinhos de chumbo do sistema, adaptados a um script e prontos para entrar novamente na bolsa de valores dos empregos. E lá no fundo do poço, começam os sonhos a sair dos armários. Quais são os meus talentos? O que eu faço bem? O que me realiza? E as pessoas tomam consciência de que, muito mais do que o dinheiro, realizar a sua missão de vida é o que verdadeiramente importa. E começam a compreender que o trabalho que tem sentido é aquele que realiza a nossa essência. Aí vem a segunda pergunta fundamental: mas, onde foram parar os meus princípios, os meus valores? Em que acredito? O que eu gostaria de deixar de legado nesse mundo? E aí vem a procura por momentos especiais em que se sentiu inteiro, íntegro, coerente consigo mesmo. Faz parte dessa busca relembrar livros e filmes que tocaram seu coração. Porque, como disse o Pequeno Príncipe, “é com o coração que se vê melhor...” Ainda no fundo do poço, mas já com os olhos plantados no alto, as pessoas começam a buscar a ação, um foco de interesse, uma motivação, e nesse momento a busca pelo sentido se torna mais importante do que a busca pelo dinheiro. Se foi dado realmente um passo no caminho do autoconhecimento, é nesse momento que a realidade começa a ser reconstruída e os projetos começam a nascer. Como eu gosto de trabalhar? Onde? Com quem? A esperança já tinge os raios dourados da alvorada e o trabalho ganha um novo sentido para o viver. Uma mudança sustentável no significado do trabalho precisa se consolidar sobre esses três pilares do autoconhecimento: meus talentos, meus valores, meus projetos. A crise atual está favorecendo a consciência de que não somos um tijolo a mais dessa construção capitalista. Podemos ser protagonistas de nossa história. O ser humano é portador de um projeto sagrado e de uma missão divina que surgiu há milhões de anos no processo evolutivo de nosso planeta. Não somos robôs movidos pelo dinheiro, e sim, seres humanos que sentem, que tem a capacidade de se envolver e se emocionar, e é exatamente esta dimensão do humano que estamos redescobrindo em nós, nesse momento. Afinal, o dinheiro não é o motivo, e sim, a conseqüência. No momento em que começamos a fazer aquilo para o qual nossa essência nos impulsiona, entramos em ressonância com o Todo e atraímos para nós tudo que é necessário. A bem- aventurança é indescritível. Joseph Campbel dizia: “Vá atrás de sua alegria! ”. A alegria significa que você está preenchido(a) por algo da ordem do sagrado, ou Deus.


Autor Mani Alvarez

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