A Psicologia Transpessoal e a Doutrina Espirita

Atualizado: Set 4

Após o término de uma análise que fiz sobre a mudança de paradigma que está ocorrendo no mundo, chegou-me às mãos o livro de uma pesquisadora, Dora Incontri, que defendeu uma tese de doutorado na USP demonstrando o importante papel da pedagogia espírita para a mudança de paradigma que vem sendo anunciada. (Pedagogia Espírita, Dora Incontri, ed. Comenius). Sua análise desvelou um aspecto que até então eu havia minimizado, que são as mesmas razões alegadas para a rejeição da doutrina espírita e que correspondem às mesmas contra a psicologia Transpessoal hoje. Como sabemos, existe uma forte rejeição à psicologia Transpessoal pelo CRP (Conselho Regional de Psicologia) em praticamente todos os estados brasileiros. Alegando que não existe comprovação científica dos fenômenos de expansão da consciência, professores e representantes da classe ignoram o grande número de teses que já foram publicadas em Universidades do país, e fazem vistas largas às pesquisas que são realizadas em outros países, onde a Transpessoal é aplicada em empresas e hospitais, além de fazer parte do currículo de diversas universidades americanas. Lendo a tese da Dra. Dora Incontri, pude perceber que a mesma reação de rejeição e não-reconhecimento sofreu Allan Kardec quando, em 1857 publicou, em Paris, O Livro dos Espíritos. Embora bastante lido e comentado por escritores e filósofos da época, Kardec sofreu do ostracismo tão comum aos que estão além de seu tempo. A análise feita pela autora mostra o jogo de forças ocultas que fomentava o pensamento da época. Durante todo o período conhecido como Iluminismo – séc. XVIII – a civilização européia viveu uma espécie de frenesi de idéias de progresso, desenvolvimentismo, industrialismo, evolucionismo. Sobretudo esta última dominava as mentes iluminadas dos pensadores. Por exemplo, Augusto Comte (1798-1857) desenvolveu a sua teoria dos três estados da evolução humana; segundo ele a evolução teria levado a humanidade a passar pelo estado teológico, metafísico e positivo. Os pensadores viam, no início, o mundo sendo uma criação de Deus, depois vieram as explicações metafísicas dos filósofos e por último, a fase científica da humanidade. Sua teoria ficou conhecida como positivista, porque era absolutamente racional e sem interferência da religião. Esse ideal positivista influenciou, inclusive, a criação da nação brasileira. Suas palavras de ordem estão escritas em nossa bandeira: Ordem e Progresso. Também a teoria marxista está inserida nesse ideal evolucionista, apenas ele situa esse movimento na luta dialética das classes operárias contra o domínio da burguesia. Para ele a sociedade comunista deveria substituir a capitalista, porque isto representaria a passagem da alienação das consciências para a consciência de classe. As idéias do evolucionismo do séc. XIX se expandiram por todos os domínios do pensamento e determinaram o paradigma em que vivemos. Caracteriza-se por: a. A evolução é uma lei natural, presente no mundo orgânico, no devir histórico e na produção humana de bens e idéias. b. A evolução tem um sentido que – se não pode ser determinado ou previsível, é pensável e inteligível. c. No plano histórico, a evolução se fecha num ciclo, num estágio ou patamar. d. O indivíduo está submetido a uma lei que o transcende e que o determina. O mais interessante, e que passou despercebido pela maioria dos pensadores positivistas que aboliram a metafísica de seus pensamentos, é que o evolucionismo é ele próprio uma doutrina metafísica. Refere-se à realidade de forma universal e estabelece leis que vão além da comprovação dita científica. O problema é que, ao preconizar um significado, uma inteligibilidade na evolução, concede-se um valor determinante à racionalidade. Ora, juntando-se esse conceito ao ideal desenvolvimentista, temos a crença no poder irrestrito da ciência explicar a realidade para transformá-la. Assim começa a era do cientificismo: “A ciência tem por meta descobrir, por meio da observação e do raciocínio, primeiro os fatos particulares sobre o mundo, depois as leis (...) permitindo prever eventos futuros. A este aspecto teórico da ciência está ligada a técnica científica, que utiliza do conhecimento científico para produzir condições de conforto e luxo...” (Bertrand Russell, pág. 40) Porque esse ideal tornou-se tão ameaçador à subjetividade, à criatividade e a própria experiência da espiritualidade? Em sua essência, a ciência trouxe a idéia de que a Razão é superior a todas as demais funções do psiquismo humano; que o exercício da racionalidade exige a supressão da subjetividade, dos sentimentos, do desejo (tudo isso é metafísica!); que só existem fatos, portanto só é real o que é visível aos olhos da matéria; que a deusa Razão pode alcançar a verdade absoluta e finalmente, que a realidade pode ser previsível, ou seja: sabendo-se o que é, pode-se prever o que será. Essas idéias, na prática, foram levando a uma sensação de impotência e inexistência do sujeito, do individual, do singular face a forças abstratas e poderosas que não compreende e estão além de seu alcance. O espírito científico tornou-se um sistema totalitário, dominando as mentes pensantes e criando teorias pessimistas a respeito da existência. Impregnou a sociologia e a psicologia. A corrente behaviorista predominava nas universidades, porque estava de acordo com a visão de um sujeito despossuído de essência, de espiritualidade, de desejo. Nesse momento ocorrem as duas grandes guerras mundiais, a Europa torna-se palco dos fenômenos do fascismo, do nazismo, da bomba atômica, da guerra “fria” entre as duas maiores nações. Como compreender tudo isso? A que foi reduzido o sonho de uma civilização racional e científica? O sujeito sente-se tocado por um grande golpe e torna-se joguete de forças que não compreende nem domina. A Razão, em seu extremo, tornou-se a mais absurda irracionalidade. O capitalismo o modela a seu bel prazer, manipulando-o a partir da produção de pseudo-necessidades. Estamos em plena era da pós-modernidade. Conhecemos bem esses sentimentos. Como um pano de fundo para todo esse cenário, filósofos de vanguarda expressam todo esse negativismo através de teorias que se caracterizam por uma atitude nadificante, niilista, cínica, irônica. Questiona-se a pretensão humana à Verdade, ao saber, à fé. Nietzsche declara que “Deus está morto”. Surge o existencialismo, sistema que nega qualquer essência no sujeito. O humanismo entra em descrédito, a elite intelectual se envergonha de expressar esperança e fé, predomina uma espécie de medo de tudo que lembre a metafísica e a ironia torna-se a arma mais poderosa contra aquilo que emerge do coração. Essa é a fase que caracteriza o cientificismo como uma ideologia niilista positivista, existencialista ou marxista. A idéia de Deus foi substituída por outros fundamentos, como evolucionismo, historicismo, existêncialismo, forças produtivas, inconsciente, energia, etc. Talvez seja pertinente lembrar aqui que todo esse movimento do pensamento que levou ao cientificismo pode ter sido gerado por um sentimento de rebelião ao tipo de espiritualidade preconizado pela Igreja e seus dogmas. Todos nós sabemos hoje das arbitrariedades praticadas em nome da religião. As representações de Deus, segundo o catolicismo tradicional inspiram o temor, não o amor e a devoção. A moralidade é imposta de forma autoritária e repressora. As alegrias naturais da vida e do sexo são banidas e proscritas como imorais e contrárias a lei de Deus. Por outro lado, as instituições religiosas hierárquicas abusam do poder e promovem guerras, violência, terror, impõe restrições ao pensamento e ao desenvolvimento da ciência. Houve época em que aqueles que ousavam falar de um Deus de misericórdia, simplicidade e devoção corriam o risco de serem acusados de estar tramando contra a Igreja, e serem levados aos tribunais da Inquisição. Pode-se supor que o Iluminismo, assim como também a Reforma Protestante, tenha surgido como um movimento de revolta e rebelião contra os excessos de uma Igreja dogmática. E ainda hoje, não seria o fundamentalismo de tantas seitas religiosas espalhadas pelo mundo uma reação ao niilismo que suprimiu a consciência de si mesmo às pessoas? É no meio desse contexto, primeiramente vítima do materialismo positivista e da crítica marxista, depois do niilismo das mentes academicistas e do não menos ameaçador diagnóstico da psicanálise, é que se esboçam os primeiros ruídos de uma mudança de paradigma. No século XIX, surge a doutrina espírita como uma nova visão da existência, onde metafísica e razão não estão necessariamente dissociados. Kardec propõe em sua obra nada menos do que um diálogo com seres invisíveis desencarnados. Sua visão se insere dentro do contexto evolucionista da época, onde o Espírito é concebido como a alma individual que transcende o corpo físico, e que no decorrer de sua vida vai construindo sua perfeição. Ele defendia a idéia de que suas observações eram empíricas, portanto deveriam fazer parte do campo da ciência. Nada disso evitou que ele e sua obra fossem proscritos, seja pela ciência seja pela Igreja. Só mais tarde, em 1962, com o livro de Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, começa uma crítica consistente ao positivismo científico. Endossavam suas idéias o filósofo Gaston Bachelard (1884-1992) e Karl Pooper (1902-1994). Enquanto Bachelard encontrava apoio na psicanálise para falar dos anseios da mente humana, de seus sonhos, Pooper atacava a ciência e o “grau de certeza” de suas afirmações. Ele insistia na afirmação de que o progresso da ciência se fundamentava em conjeturas, e que era impossível ter certeza sobre qualquer afirmação sobre a natureza. Mais tarde surgem descobertas, principalmente na física e na biologia, que contestam essa visão de objetividade da ciência, trazendo de novo para o centro o sujeito e sua consciência. Mas, em que pesem todas essas mudanças no cenário do conhecimento, as mentes ainda são regidas pelos valores do velho paradigma e talvez muitas gerações ainda sejam necessárias para que uma verdadeira mudança seja percebida. Se no século passado foi a doutrina espírita que fez sua aparição, questionando os pressupostos enferrujados de uma visão de mundo onde não havia lugar para o espírito, no século XX foi a psicologia Transpessoal, apontando para realidades superiores desveladas por outros planos da consciência. Se antes havia as mesas dançantes, agora temos a parapsicologia, as viagens astrais, os estados de expansão da consciência, as regressões de memória, a respiração holotrópica, constatações empíricas que conduzem à afirmação de uma realidade para além daquela que é percebida pelos nossos cinco sentidos. A espiritualidade não é mais uma questão de crença ou fé, mas torna-se cada vez mais uma aliada para as explorações da ciência em busca da Verdade. Por muito tempo ainda vamos ouvir risinhos e piadinhas sobre nossa ingenuidade, e vamos ter de conviver com alegações de serem fantasias, delírios, sonhos, projeções, tudo aquilo que vivenciamos em estados de expansão da consciência. As sombras da Idade Média e seu obscurantismo ainda cobrem o mundo. Ontem foi Kardec, hoje são os “transpessoais”... mas a busca continua.


Autor Mani Alvarez

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