top of page

Matrix: do outro lado do espelho



Como tantos outros, também me senti instigada a comentar o filme MATRIX, porque ele nos coloca diante de uma pergunta que considero crucial nos últimos tempos: o que é realidade? O lado direito ou o avesso do espelho? Vivemos uma época onde os parâmetros daquilo que é ou não é real se tornaram confusos. E a nossa mente descobre que possui potencial para infinitas percepções disso que chamamos de real.


Como em toda obra, este filme tem várias leituras possíveis. Eu tive de escolher uma delas e escolhi seguir a vertente do próprio nome do filme. Matrix vem do latim, que significa matriz, origem, início.

Usando de uma linguagem metafórica, significa ‘Mãe’.


Supondo que tenham conhecimento do filme, existem várias passagens em que são colocadas perguntas como essas: O que é a Matrix? Você busca pela Matrix. A Matrix está em todo lugar, a nossa volta, é o mundo colocado diante de seus olhos, para que você não veja a verdade. Que verdade? Que você é um escravo. Sua mente está aprisionada. Assim diz Morpheus a Neo, o protagonista.


Vendo esse filme, não pude deixar de dar razão a Freud, que declarou no ano de 1895, num texto onde ele estudava a histeria, que tudo aquilo que ele dizia sobre os sintomas psicológicos eram encontrados também nos romances. Ele ainda não tinha visto Matrix, mas percebeu que a literatura se antecipa à ciência, e dramatiza as questões mais importantes da vida humana. Exemplos não faltam: de Sófocles a Leonardo da Vinci, Shakespeare, Goethe, Joyce, Edgar Alan Poe e muitos outros. Nós podemos rastrear

as maiores questões humanas apenas através dos filmes que são produzidos.


O filme Matrix, por exemplo, coloca a pergunta mais crucial que podemos fazer, que é: quem sou eu e de onde vim? Na vertigem dessas perguntas, outras vão surgindo: o que é realidade? Será que estou sonhando que estou acordado ou estou acordado pensando que estou sonhando? Qual é a garantia, a consistência disso que chamamos de realidade?


Desde o início, quando percebemos o plano virtual da informática, tudo parece girar a partir de um mundo gerado por máquinas, computadores, inteligências artificiais, homens-máquina, códigos e sinais elétricos interpretados por computadores. Afinal, essa é a linguagem de nossa época. Mas a questão de fundo é outra, é muito mais antiga, tem a idade da origem da humanidade. E talvez tenha sido esse o maior fator de sucesso desse filme, ele mexe com questões arquetípicas, só que de uma forma moderna.


Vou tentar ir seguindo, paralelamente, o filme e teorias psicanalíticas que falam das mesmas questões. Não foi por nada que intitulei esse texto como “Matrix: do outro lado do espelho”. Porque toda a história começa com um atravessar o espelho (que reflete o conhecido) para ir até as origens (o desconhecido). A cena que mostra isso é bem clara: depois de ter tomado a pílula vermelha que o levaria a entrar na ‘toca do coelho’, Neo se vê refletido de forma estranha no espelho, há um estranhamento, sua imagem começa a se fragmentar, ele tenta tocar o espelho (vejam a nossa dependência dos sentidos para comprovar o que é real) e aí começa a ser envolvido por uma substância gelatinosa, como um líquido amniótico que o engole num parto ao contrário; em vez de

sair, ele entra de volta para o útero.




Então, essa expressão do outro lado do espelho poderia ser interpretada como uma vivência regressiva, a regressão a um estado anterior à constituição do ‘eu’. Na teoria psicanalítica há uma expressão criada por Lacan, em 1936, para designar um momento psíquico e ontológico da evolução humana. Este momento se situa por volta dos 18 meses de vida. A criança antecipa a percepção de sua imagem corporal unificada numa forma, como se ela estivesse vendo uma imagem num espelho e se visse refletido nela, e isso, ou essa imagem, ela reconhece como sendo o ‘eu’. A esse momento Lacan chamou de ‘estágio do espelho’.


Isso significa que o ‘eu’ é uma imagem, nada mais. Hoje talvez disséssemos: é uma imagem holotrópica! Ela nos aliena de nós mesmos, mas, sem ela, não existiríamos enquanto indivíduos. Sendo assim, o que existiria ‘do outro lado do espelho’? Ou seja, antes do ‘eu’ o que existe, afinal?


Antes do ‘eu’ não há uma unidade onde o ‘eu’ possa se reconhecer. A isto a psicanálise diz que tudo que há é uma falta, um vazio, um buraco no ser do qual nada podemos dizer. Podemos supor que lá somos apenas pedaços, fragmentos, dispersão no todo, porque ainda não há consciência do ‘eu’. Existem obras de arte belíssimas que retratam essa sensação de corpo fragmentado. Algumas pessoas revivem isto num surto causado por drogas, pelo álcool ou por uma psicose. Às vezes, também numa meditação profunda.


Podemos até criar um mundo virtual por detrás do espelho, mas tudo isso só poderá ser construído retroativamente, a partir de um ‘eu’ já constituído, que cria uma hipótese, um mundo virtual construído pelas projeções de suas fantasias. É louco isso?

A questão permanece: o que é realidade? É algo construído, projetado pelo desejo, pela fantasia? Se for, realidade é só uma construção mental, uma ideia, um sonho? Se não for, onde está sua consistência -- material ou não? Essas são as questões que o filme joga sobre nós. Ele cria um fantástico mundo de seres artificiais e máquinas voadoras que ameaçam sugar a vida e energia dos humanos sobreviventes numa terra desértica do ano 2.199.


Só que, nesse mundo primordial -- que no filme é o futuro -- não há alteridade, não há subjetividade, pois não existe um mundo humano. Só existem máquinas, robôs. O que caracteriza o mundo humano é a relação com o outro, a empatia, o sentir junto, o amor. Para isso é necessário haver o reconhecimento, e uma espécie de acordo ou pacto social, onde todos se reconhecem fazendo parte de uma mesma história – mesmo que seja a história de uma alienação. É verdade, nós não sabemos de onde viemos, mas fazemos de conta que começamos a existir quando nos vimos refletidos no espelho do olhar do outro e ele nos diz: você é fulano de tal; e nós nos dependuramos nisso e acreditamos por toda a eternidade que isso é a verdade.


Vamos aceitar – provisoriamente – que realidade é um pacto social. Um mundo de mentirinha. Criado por um Decreto. Sem questionar quem dá as cartas, mesmo sabendo que são os poderosos e as grandes corporações financeiras que dão as cartas.


Fantástico! Nossa realidade já é bastante parecida com aquela que mostra o filme. Vivemos já num mundo onde as máquinas dominam: veículos de condução, automatização do trabalho, caixas eletrônicas, aparelhos elétricos, computador... num futuro bem próximo serão os alimentos transgênicos, serão as pesquisas com o DNA, os clones... e a vida vai se tornando cada vez mais artificial.


Quais são os modelos que esse pacto social tem produzido nos últimos tempos? A de seres vazios, robotizados, sem vontade própria, apáticos, inconscientes, sonambúlicos, que se deixam guiar sem muita contestação. No fundo, uma sociedade impotente e alienada. Que se embriaga nos fins de semana com a cerveja da moda, se aliena com as drogas do momento, se entorpece com o volume ensurdecedor de suas músicas nos carros ou em ambientes públicos, se embrutece com a violência transmitida pela mídia nos noticiários diariamente. Aos poucos está sendo criado um mundo de zumbis do qual nós fazemos parte hoje, agora mesmo, nesse momento.


Este é o mundo da Matrix. No filme, as pessoas andam atarefadas de cá para lá sem ir a lugar nenhum. Quando surge alguém com talento e capacidade criativa, como o Neo, ele só vê uma saída: transgredir.


Interessante, antigamente a transgressão era pelas armas ou pela política. Hoje é pela Internet. Penetrar nos sistemas ultra fechados das grandes corporações é um ato mais para o heroísmo do que para a delinquência. Neo é um herói ou um delinquente? Não importa: era alguém que pensava. E porque pensava, transgredia. O filme nos provoca horror. Porque ele toca justamente naquilo que temos como mais verdadeiro: a

confiança em nossos sinais sensoriais, nossos sentidos, nossa crença de que sabemos o que é real e o que não é. Ele quebra com essas certezas, exatamente como hoje faz a neurociência. Ela nos mostra que o nosso cérebro capta apenas as vibrações emitidas por nossos sentidos – ver, cheirar, tocar, sentir, provar – estes são apenas os sinais vibracionais do mundo externo. Lá dentro, o neocórtex traduz: isso é uma rosa; ou, isso é um livro. Para podermos afirmar que algo é real entra em jogo toda uma rede de

complexos processos neurológicos em ação organizados segundo nossas crenças.


E o mais fantástico de tudo isso é que nem os sentidos são necessários. Todas as reações bioquímicas em nosso organismo podem ser acionadas por um pensamento. Basta imaginar que ‘isto é uma rosa’ ou que ‘isto é um livro’, e o nosso cérebro vai reagir da mesma forma como se estivéssemos de fato diante de uma rosa ou de um livro.


O que o filme vai mostrar (e que a ciência está tentando mostrar também) é que, se o real é aquilo que eu penso que é real, obviamente então eu posso criar a realidade que eu quiser. Posso voar, posso anular a matéria, o tempo e o espaço, posso me transformar numa outra pessoa... não acredita? Isto não é ficção! A neurociência e a física quântica estão escrevendo o script do futuro.


E aqui vem a questão mais intrigante: por que os sobreviventes da Matrix não utilizam desse poder da mente para criar um mundo novo e humano? Porque ainda parecem presos ao antigo padrão de lançar mão de recursos tão antigos, como dar tiros com suas armas moderníssimas, requintes da alta tecnologia americana.


Para compreender isso é preciso dar um salto para além do espelho. No filme, tanto quanto em nossa existência, o que está em jogo é outra coisa. É a busca é pela origem. É a pergunta eterna: de onde vim? No filme, não é um mundo novo o que buscam, é o passado, é uma ponte que vai reuni-los novamente com a origem: e essa ponte é Sião, uma cidade dos humanos à moda antiga. A única que restou. Nela, sim, são geradas as crianças do futuro, seres extraordinários que aprendem desde cedo a usar os poderes

da mente. Em Sião nos surpreendemos com crianças que passam o tempo a entortar colheres, e brincam de fazer objetos flutuarem só com a força mental.


Sião pode ser associada à mãe boa, à mãe que cuida e ama, que sustenta a evolução da verdadeira humanidade. A velha Matrix é a mãe má, artificial, devoradora, equivalente moderna da Grande Mãe primitiva, que dava à luz e devorava os próprios filhos, como um monstro antropofágico.


O filme Matrix nos coloca diante de um arquétipo que permanece nos recônditos do inconsciente coletivo: o medo da poderosa Grande Mãe primitiva. Na origem da humanidade, antes que o patriarcalismo se instalasse como um pacto social, havia o culto a uma força poderosa, instintiva e primitiva, que nossos ancestrais pressentiam na natureza, e à qual reverenciavam como uma deusa. Essa deusa, tal qual a natureza, alimentava, nutria, mas também destruía tudo em seus ataques de fúria, provocando cataclismos, enchentes, secas, terremotos, raios e trovões. O poder da Grande Mãe

era tamanho que a consciência humana, em sua história, só muito lentamente, conseguiu adquirir autonomia e independência, se individualizando. Ao se individualizar, criou o patriarcalismo, e com ele teve origem o pacto social atual, que prioriza as relações de poder e os valores masculinos da guerra e da competitividade. Para enfrentar os poderes da Grande Mãe, era preciso a coragem masculina, ativa

e guerreira.


Um arquétipo tem milhões de anos. Depois do patriarcalismo, para onde foi a Grande Mãe? Para os porões do inconsciente. Ela está presente ainda hoje, em pleno século XXI, dentro de nós, como uma ameaça interiorizada que ainda assusta, imobiliza e impede o mergulho para o outro lado do espelho.


Pergunto: por que o feminino ainda assusta tanto a homens e mulheres? Talvez seja porque ele ainda reacende a lembrança desse temor ancestral a uma figura ambígua, que nutre e cuida, mata e engole: o arquétipo dessa mãe primitiva.


O filme Matrix é um mergulho no útero dessa Grande Deusa. Ao atravessar para o outro lado do espelho, o personagem enfrenta sua própria dissolução no vazio, o despedaçamento de sua imagem, e sua coragem heroica fez dele um Escolhido ao escolher a pílula vermelha. Saiu da Matrix. Do útero da Mãe Devoradora.


Poucos se tornam heróis. Uma frase de Morpheus que me chamou a atenção: ”a maior parte das pessoas não está pronta para acordar. São dependentes do sistema e vão lutar para preservá-lo. “ Neo é o Escolhido porque ele tem a coragem de descer até o vazio do nada, enfrentar todos os dragões do caminho, depois salvar o pai (Morpheus) e só então recebe a recompensa do amor da donzela (Trinity). Este é o protótipo do herói.


Mas, como em todas as sagas de heróis, depois de sua iniciação ele precisa voltar à vida comum, à Matrix, e colocar-se a serviço. A serviço de que? Do despertar dos outros. O herói é aquele que descobre o caminho, que vai na frente para que os outros o sigam. O filme termina com a volta de Neo às ruas de sua cidade, na Matrix, só que agora, olhando tudo com outros olhos, os olhos de um iniciado, de um Ser Desperto, de alguém que ousou atravessar para o outro lado do espelho e enfrentar o vazio do eu. A este vazio a psicanálise dá o nome de ‘falta para ser’, e só quando mergulhamos no

abismo da falta podemos despertar o desejo, que é o motor que move para o Ser.

51 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Comments


bottom of page