Uma nave espacial chamada

Atualizado: Set 4

Basta um rápido olhar para sentir a insanidade de nossa cultura no planeta: um crescimento populacional descontrolado, uma tecnologia indiferente ao impacto que causa ao meio ambiente, um estímulo desvairado ao consumismo, meios de comunicação inconseqüentes e, no centro de tudo isso, pessoas hipnotizadas, robotizadas, alienadas, vivendo num nível de consciência quase pré-humano. O grande desafio do século XXI é vencer esta hipnose coletiva e começar a explorar o nosso espaço interior, promovendo uma guinada nas políticas educacionais e nos meios de comunicação de massa. A missão histórica de nossa época é ‘reinventar o humano’, porque somos a única espécie que dá forma a si mesma através do modo como articula a sua cultura, suas relações sociais, seu modo de ser no mundo. Além do código genético que nos determina biologicamente, temos um código trans-genético pelo qual nos ultrapassamos. E é disso que se trata: a espécie humana precisa ultrapassar esse estágio individualista, egóico e inconseqüente de ver a vida. Só assim poderá desenvolver relações sustentáveis também com outras formas de vida, como acontece em outros sistemas biológicos. Reinventar o humano só será possível assumindo realmente nosso ‘habitat’ chamado Terra, que é a comunidade onde convivem todos os sistemas de vida em nosso planeta. Assim, respeitar as espécies animais, cuidar dos ecossistemas, preservar as matas nativas, as fontes de água, zelar pela qualidade do ar que respiramos, tudo isso faz parte de uma evolução da consciência para níveis mais humanos O primeiro passo será sair heroicamente dos padrões de consumismo que nos escravizam. Isto não significa se privar das coisas necessárias, mas simplificar conscientemente nossas necessidades. Numa pesquisa feita recentemente, a maioria das pessoas declarou que praticamente tudo que ganham é para pagar prestações. E mal acabam de pagar um carnê, fazem outro. Esse encantamento produzido pelo consumismo acaba aprisionando as pessoas num afã de comprar coisas sempre novas, modernas, atraentes, descartáveis, alimentando esse monstro devorador que é esse sistema de produção irresponsável que dirige as industrias e o comércio. Suas técnicas de persuasão induzem o comprador a agir automaticamente, sem pensar. Esse é um tipo de ‘hipnose coletiva’ que predomina em nossa cultura e impede o despertar da consciência intencional, crítica, responsável. A transição planetária que se anuncia irá exigir de nós pequenas mudanças individuais por meio de nossas ações conscientes, por exemplo, vencer o egocentrismo, a passividade, a indiferença, em prol da participação comunitária nos problemas sociais, posicionar-se corajosamente contra a política da corrupção, criticar meios de comunicação que exploram o sensacionalismo, deixando de lado notícias educativas e culturais, estimular os trabalhos em parceria, adotar estilos de vida mais simples etc. Se o planeta Terra, onde vivemos e do qual somos todos cidadãos, é uma entidade viva, a raça humana é uma grande família. Não pode haver separação entre negros, brancos e amarelos, ricos ou pobres, homens ou mulheres, católicos ou muçulmanos. Somos todos viajantes dessa nave espacial chamada Terra. Por causa de nossa insanidade, nosso ‘habitat’ está em pane. Robert Muller, pesquisador da ONU, declarou sua descrença na ação dos organismos públicos responsáveis por enfrentar a grande crise ecológica que estamos vivendo. Hoje ele aposta mais no despertar individual das consciências para uma mudança global. E recomenda: 1. Declarar estado de emergência na Terra. 2. Considerar a situação atual como a Terceira Guerra Mundial declarada, desta vez contra a natureza e seus elementos. 3. Forçar uma mudança radical no sistema político do nosso planeta, exigindo mudanças tecnológicas que respeitem a lei ambiental. 4. Criar, em medida de urgência, um Governo da Terra, nos moldes da União Européia, que fiscalize, proteja e puna todas as ações que possam comprometer a vida sobre o planeta. A educação é fundamental para esse momento de mudança de paradigma. Ao contrário da lei de Darwin, que defende a idéia de que só os mais aptos irão sobreviver, afirma Ervin Laszlo que "nossa evolução futura não será decidida pela sobrevivência dos mais fortes, e sim, pela sobrevivência dos mais sábios". Ele insiste em que, a não ser que o espírito e a consciência das pessoas evoluam até a dimensão planetária, o desequilíbrio que perturba a humanidade se intensificará e irá criar uma onda de choque que pode colocar em risco nossa sobrevivência como espécie no planeta Terra. Temos de compreender que nossa evolução rumo a uma verdadeira humanidade está em nossas mãos. Cada um de nós está convidado a dar o seu primeiro grande passo planetário.


Autor Mani Alvarez

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